No frio, as coisas congelam. Era esse tipo de solidez que ela sempre temeu, e sem notar se entregou às mentiras de suas emoções e resolveu se dissolver. De maneir
a bem estranha, seguiu em direção contrária à integração que tanto almejava.
Interessante notar que depois da dissolução total, os fragmentos que tanto incomodavam já não existiam. Pelo menos não de maneira cristalizada, o que alimentou a falsa sensação de ser divertido estar dissolvida. Ela nunca se sentiu tão grata ao movimento cíclico do mundo natural. O frio que a dor da dissolução traz permite nova agitação para aproximar o que está disperso e alcançar novamente o estado sólido. Ela compreendeu que embora fosse novamente congelar, agora o arranjo das partes poderia ser diferente.
Entre todas as possibilidades da palavra coração, ela vislumbrou algo. Ele tece as relações, tece o contato com o outro. Se isso não acontece, o sentido deixa de acompanhar as ações. Isso explicaria as atitudes sem sentido que ela vinha tomando. As explicações seriam necessárias? Talvez não a explicação em si, mas a interpretação dos fatos. Interpretar o que já foi permite o retorno de sentido para o que estava disperso. Seria então um retorno ao coração?
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
O papel da dor
Estava dissolvida. A única maneira de fazer valer a pena cada tropeço seria compartilhar seu presente momento. Estava em carne viva, pois o que sentia já havia ultrapassado a dor de uma ferida. Entendeu que a dor e o riso caminham juntos. Rir era a única maneira de continuar, mas não queria o riso sem motivo. Queria rir de si mesma, como espectadora de um enredo confuso que não tinha como promessa revelar seus mistérios.
O olhar que a acompanhava poderia ser o seu ou não. Ela jamais saberia. A visão poderia ser clara ou apenas mais uma tentativa frustrada de justificar as próprias falhas. Fazia isso com constância – justificava cada passo, como se isso pudesse defendê-la de si mesma. Não agüentava mais confrontar o auto-engano depois de retirar o cobertor que o escondia. Precisava de substância, sem nem sequer ter idéia do que isso significasse.
Sentia desdém pelo sólido? E não seria o sólido uma mera ilusão, que insiste em fazê-la acreditar que tudo está separado? De repente, percebeu que integrar o que estava dissolvido nada mais é que o retorno ao estado sólido. Assim, a palavra ganhou movimento, o que deu novo sentido à situação.
O olhar que a acompanhava poderia ser o seu ou não. Ela jamais saberia. A visão poderia ser clara ou apenas mais uma tentativa frustrada de justificar as próprias falhas. Fazia isso com constância – justificava cada passo, como se isso pudesse defendê-la de si mesma. Não agüentava mais confrontar o auto-engano depois de retirar o cobertor que o escondia. Precisava de substância, sem nem sequer ter idéia do que isso significasse.
Sentia desdém pelo sólido? E não seria o sólido uma mera ilusão, que insiste em fazê-la acreditar que tudo está separado? De repente, percebeu que integrar o que estava dissolvido nada mais é que o retorno ao estado sólido. Assim, a palavra ganhou movimento, o que deu novo sentido à situação.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Movimento
A vida é assim. Para que falas e diálogos se a história acontece dentro de nós? Personagens externos se fundem aos diversos personagens que carregamos, roubando a clareza daquilo que realmente vale à pena.
E que tipo de blog é este, sem definição ou direção clara? História interna, sem pretensão de adquirir forma e munida da simples necessidade de manifestar algo sem nome. Os rótulos limitam e ficar imóvel me cansa.
Somos seres humanos. Isso nos aproxima e nos afasta. Temos potencial para transformar paredes, mas insistimos em acreditar que vislumbrá-las é atitude estável. A estabilidade que procuramos sufoca o avanço. Somos bombardeados por fórmulas para “ser magros”, “ser feliz”, “ser equilibrados” ou “ser alguém igual a outro desprovido de fórmulas”. Mas saiba: este coração que busca algo sem nome não tem fórmulas ou soluções, apenas perguntas. E precisa compartilhar isso. Deixar claro a imensidão daquilo que cada um carrega, mostrando sombras de maneira natural, é um tipo de movimento em direção àquilo que nos aproxima. Este coração está farto de tudo o que nos afasta.
Se ainda está lendo acredite: o seu coração sabe sobre o que o meu fala. Não tenho claro os motivos da nossa jornada diária que é existir, não sei de onde vim nem para onde vou; não carrego certezas e por isso mesmo não tenho respostas. Isso poderia me afastar de você. Mas, nunca precisei tanto me sentir conectada aos meus semelhantes para aceitar essa minha humanidade. Talvez fluir se torne algo natural se a correnteza me acompanhar. Quem sabe do mar que nos espera?
E que tipo de blog é este, sem definição ou direção clara? História interna, sem pretensão de adquirir forma e munida da simples necessidade de manifestar algo sem nome. Os rótulos limitam e ficar imóvel me cansa.
Somos seres humanos. Isso nos aproxima e nos afasta. Temos potencial para transformar paredes, mas insistimos em acreditar que vislumbrá-las é atitude estável. A estabilidade que procuramos sufoca o avanço. Somos bombardeados por fórmulas para “ser magros”, “ser feliz”, “ser equilibrados” ou “ser alguém igual a outro desprovido de fórmulas”. Mas saiba: este coração que busca algo sem nome não tem fórmulas ou soluções, apenas perguntas. E precisa compartilhar isso. Deixar claro a imensidão daquilo que cada um carrega, mostrando sombras de maneira natural, é um tipo de movimento em direção àquilo que nos aproxima. Este coração está farto de tudo o que nos afasta.
Se ainda está lendo acredite: o seu coração sabe sobre o que o meu fala. Não tenho claro os motivos da nossa jornada diária que é existir, não sei de onde vim nem para onde vou; não carrego certezas e por isso mesmo não tenho respostas. Isso poderia me afastar de você. Mas, nunca precisei tanto me sentir conectada aos meus semelhantes para aceitar essa minha humanidade. Talvez fluir se torne algo natural se a correnteza me acompanhar. Quem sabe do mar que nos espera?
Historia 3
A senhora no ponto de ônibus assustou-se com o som do escapamento. Observou o velho carro passando e estranhamente se enxergou. Tantos anos direcionando vidas alheias que com o passar do tempo encontraram veículos novos e diferentes. Por que envelhecemos? O médico esteve com ela alguns minutos, que foram encerrados com uma receita para aliviar suas dores. Isso era possível, mesmo notando em seu íntimo que o olhar daquele jovem não alcançava sequer o pouco que conhecia de si mesma?
História 2
Ele observou a paciente deixando a sala. Duas da manhã e mais uma prescrição feita. As mãos coçaram os olhos na tentativa de despertar. Não havia sentido algum naquele período vivenciado. Após tantos anos na faculdade, estudando as mais diversas patologias, ele nem sequer poderia saber se aquela pessoa que acabara de sair iria encontrar real alívio. Não tinha religião e achava a palavra sinônimo de qualquer coisa pejorativa. Mesmo assim, colocou sua atenção na violeta em cima da mesa. Estaríamos tão distantes dessa força que gera algo tão perfeito, belo e simétrico como aquela flor? O que impede a presença dessa força nas pessoas doentes? Ao divagar por esses pensamentos sentiu-se fora de órbita, sensação incômoda que foi sanada assim que ligou a TV.
domingo, 24 de janeiro de 2010
História 1 - A Arte do coração
Levantou cedo. Não era um hábito, mas há anos se esforçava para que se tornasse um. Talvez um esforço arisco, que escapava das mãos quando era conveniente. Olhou para o espelho e nada viu de fato. Isso sim era um hábito. O banho foi rápido, sem nenhum tipo de percepção refinada. Apenas um banho, repleto de pensamentos que não deixavam espaço para o presente momento, pois ela insistia em se fragmentar e perder de vista suas partes no passado e no futuro.
A roupa foi escolhida sem sensibilidade, o que obviamente deixou Bia muito parecida com as outras mulheres. Enquanto se aprontava o sono a acompanhava. Despertar não é apenas abrir os olhos.
-- Onde está meu celular? – interrompeu Leo, com a mesma voz que ela tanto ouvia e mal escutava.
-- Você perdeu de novo? – respondeu sem pensar, o que deixou escapar a sutil constatação de que esse tipo de frase não ajuda em nada e tampouco estabelece comunicação.
Ele apenas lançou um olhar frio, do tipo que requer o desenho de um pedaço de gelo quando exibido nos gibis. Cansado das constantes críticas que recebia, simplesmente continuou procurando o aparelho. Bia estava tão absorta em um turbilhão de pensamentos, que não notou a queda de temperatura no quarto.
A temperatura continuou caindo em diferentes situações. Todas tinham o mesmo pano de fundo: a voz que não alcança o ouvido para chegar ao coração e estabelecer comunicação.
A separação foi inevitável.
Lembrou-se da cena inicial, em que estava frente a frente com o outro e não soube extrair sentido. Era como se grande parte da sua vida estivesse no piloto automático, dirigida por ações, pensamentos e sentimentos mecânicos. Não queria repetir esse padrão no relacionamento que vinha tecendo com a Vida. Dos dias compartilhados ela se lembrava com carinho. Mesmo no frio, outro personagem estava em cena aquecendo aqueles corações. E as lembranças seguiam.
Uma voz chamou pela mãe de forma branda e suave, apesar da fome. Bia deixou tudo e correu contente, pois nada era mais delicioso que o despertar daquela criança. O nome era Maria Luiza, cujo samba é bonito pra chuchu. Sim, era uma homenagem ao Tom Jobim – aceitando que rimas infantis podem ter seu valor. Na adolescência ouviu essa música diversas vezes, e sempre foi grata à arte que o coração pode expressar. Desde sempre, Bia respirava melhor quando estava acompanhada de Toquinho, Vinicius, Chico, Gonzaguinha, Boca Livre, Nietzsche, Drummond, Pessoa ou Giannetti. O engraçado é que era proposital, ela forçava a presença de cada um na tentativa de sentir-se mais adequada ao meio.
Não tinha nenhuma pretensão de ser intelectual, até porque se aborrecia com aqueles que gostavam e lutavam pelo rótulo. Só queria se aproximar de quem pensa, sente e vive ao invés de permanecer na névoa de preocupações e expectativas em cima de um futuro desenhado – e curiosamente não era ela quem tinha o lápis nas mãos. Queria mesmo era ser íntegra; inteira. Sonhava com o dia em que sua humanidade não lhe fosse estranha.
-- Arruma a cama. Eu vou cortar uma fruta para a Malu. – Ah, se ela soubesse! Frases curtas carregam em cada palavra registros de uma história não interpretada.
Ele ouviu, e mesmo sem pensar a respeito sentiu certo incômodo com o tom e autoritarismo que permeavam o falso diálogo que eles mantinham. Arrumou a cama, pois suas ações mecânicas permitiam a forma que a relação vinha adquirindo.
Ele era paciente, e os gregos já alertavam: nada em excesso! Nem mesmo um sentimento tão nobre, uma vez que a fronteira para a submissão era tênue. Dessa maneira, o desrespeito pôde avançar conquistando territórios que não lhe pertenciam.
-- Estamos atrasados. – ele avisou, interrompendo sem saber o único momento que permitia a integração passageira daquela que insistia em tentar penetrar e compartilhar as emoções que para ele eram estranhas.
Ela sempre estava atrasada. Insistia em perceber melhor as coisas depois que elas haviam passado. E mais fragmentos abandonavam sua integridade.
E o riso nessa história? Ah, o riso. Sim. Vamos falar do passado então.
Era uma vez, uma jovem cheia de potencial – que obviamente não sabia disso, senão não haveria motivos para o riso. Ela olhava para as estrelas e deixava ali seus sonhos. Escadas para chegar até lá? Ahn?
Uma carência estranha a acompanhava, e ela buscava preenchimento nas relações. Se perceber qualquer semelhança com a sua vida lembre-se: é mera coincidência. Além da carência, havia o medo. Com essas duas companhias, ela enfrentou relações que de amorosas pouco tinham. Aprendizado muito, pois o mundo natural nada desperdiça, e isso permitia o movimento.
Seus namoros duravam anos, demonstrando a teimosia que lhe era peculiar. Queria ser vista, mas era mais míope que as vítimas de seus quereres. Não sabia de nada disso, só acreditava que estava fazendo escolhas. Tudo bem, agora pode gargalhar.
Conheceu Leo em um momento tão confuso quanto seus pensamentos. Pode-se dizer que foi uma época de justificativas necessárias para que ela não desistisse de si mesma. O encanto que a história dos dois carregava não permitiu a percepção clara do todo. Maneira diferente de dizer que a paixão é cega, pois o amor tudo vê.
Não pense que não existia amor. Bia apenas não soube deixá-lo ocupar o lugar devido na hora certa. Arte é isso.
A roupa foi escolhida sem sensibilidade, o que obviamente deixou Bia muito parecida com as outras mulheres. Enquanto se aprontava o sono a acompanhava. Despertar não é apenas abrir os olhos.
-- Onde está meu celular? – interrompeu Leo, com a mesma voz que ela tanto ouvia e mal escutava.
-- Você perdeu de novo? – respondeu sem pensar, o que deixou escapar a sutil constatação de que esse tipo de frase não ajuda em nada e tampouco estabelece comunicação.
Ele apenas lançou um olhar frio, do tipo que requer o desenho de um pedaço de gelo quando exibido nos gibis. Cansado das constantes críticas que recebia, simplesmente continuou procurando o aparelho. Bia estava tão absorta em um turbilhão de pensamentos, que não notou a queda de temperatura no quarto.
A temperatura continuou caindo em diferentes situações. Todas tinham o mesmo pano de fundo: a voz que não alcança o ouvido para chegar ao coração e estabelecer comunicação.
A separação foi inevitável.
Lembrou-se da cena inicial, em que estava frente a frente com o outro e não soube extrair sentido. Era como se grande parte da sua vida estivesse no piloto automático, dirigida por ações, pensamentos e sentimentos mecânicos. Não queria repetir esse padrão no relacionamento que vinha tecendo com a Vida. Dos dias compartilhados ela se lembrava com carinho. Mesmo no frio, outro personagem estava em cena aquecendo aqueles corações. E as lembranças seguiam.
Uma voz chamou pela mãe de forma branda e suave, apesar da fome. Bia deixou tudo e correu contente, pois nada era mais delicioso que o despertar daquela criança. O nome era Maria Luiza, cujo samba é bonito pra chuchu. Sim, era uma homenagem ao Tom Jobim – aceitando que rimas infantis podem ter seu valor. Na adolescência ouviu essa música diversas vezes, e sempre foi grata à arte que o coração pode expressar. Desde sempre, Bia respirava melhor quando estava acompanhada de Toquinho, Vinicius, Chico, Gonzaguinha, Boca Livre, Nietzsche, Drummond, Pessoa ou Giannetti. O engraçado é que era proposital, ela forçava a presença de cada um na tentativa de sentir-se mais adequada ao meio.
Não tinha nenhuma pretensão de ser intelectual, até porque se aborrecia com aqueles que gostavam e lutavam pelo rótulo. Só queria se aproximar de quem pensa, sente e vive ao invés de permanecer na névoa de preocupações e expectativas em cima de um futuro desenhado – e curiosamente não era ela quem tinha o lápis nas mãos. Queria mesmo era ser íntegra; inteira. Sonhava com o dia em que sua humanidade não lhe fosse estranha.
-- Arruma a cama. Eu vou cortar uma fruta para a Malu. – Ah, se ela soubesse! Frases curtas carregam em cada palavra registros de uma história não interpretada.
Ele ouviu, e mesmo sem pensar a respeito sentiu certo incômodo com o tom e autoritarismo que permeavam o falso diálogo que eles mantinham. Arrumou a cama, pois suas ações mecânicas permitiam a forma que a relação vinha adquirindo.
Ele era paciente, e os gregos já alertavam: nada em excesso! Nem mesmo um sentimento tão nobre, uma vez que a fronteira para a submissão era tênue. Dessa maneira, o desrespeito pôde avançar conquistando territórios que não lhe pertenciam.
-- Estamos atrasados. – ele avisou, interrompendo sem saber o único momento que permitia a integração passageira daquela que insistia em tentar penetrar e compartilhar as emoções que para ele eram estranhas.
Ela sempre estava atrasada. Insistia em perceber melhor as coisas depois que elas haviam passado. E mais fragmentos abandonavam sua integridade.
E o riso nessa história? Ah, o riso. Sim. Vamos falar do passado então.
Era uma vez, uma jovem cheia de potencial – que obviamente não sabia disso, senão não haveria motivos para o riso. Ela olhava para as estrelas e deixava ali seus sonhos. Escadas para chegar até lá? Ahn?
Uma carência estranha a acompanhava, e ela buscava preenchimento nas relações. Se perceber qualquer semelhança com a sua vida lembre-se: é mera coincidência. Além da carência, havia o medo. Com essas duas companhias, ela enfrentou relações que de amorosas pouco tinham. Aprendizado muito, pois o mundo natural nada desperdiça, e isso permitia o movimento.
Seus namoros duravam anos, demonstrando a teimosia que lhe era peculiar. Queria ser vista, mas era mais míope que as vítimas de seus quereres. Não sabia de nada disso, só acreditava que estava fazendo escolhas. Tudo bem, agora pode gargalhar.
Conheceu Leo em um momento tão confuso quanto seus pensamentos. Pode-se dizer que foi uma época de justificativas necessárias para que ela não desistisse de si mesma. O encanto que a história dos dois carregava não permitiu a percepção clara do todo. Maneira diferente de dizer que a paixão é cega, pois o amor tudo vê.
Não pense que não existia amor. Bia apenas não soube deixá-lo ocupar o lugar devido na hora certa. Arte é isso.
E de repente...
... entendeu que seu coração não lhe pertence. Tudo o que ela poderia conseguir era a captura nos momentos de expansão, mas logo vem a contração e ele escapa. Era a hora da escolha: se deixar guiar por pensamentos ordenados pela cultura, sociedade, família e experiências que lhe couberam ou buscar seu coração, mesmo sabendo que ele voltaria a escapar. Quantos espelhos ainda a esperam?
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